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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A disputa pela liberdade de expressão na América Latina


Recebi um e-mail com um pronunciamento do deputado federal do PSOL/SP, Ivan Valente, no dia 8 de outubro de 2009 na câmara dos deputados em Brasília, sobre o tratamento dado ao Golpe de Estado ocorrido em Honduras nos grandes meios de comunicação na America Latina, para não dizer no resto do mundo.



Para quem quiser continuar e ler na íntegra o pronunciamento do deputado é só...

Não sou de nenhum partido político e nem conheço muito a tragetória do Ivan Valente. Apenas corroboro com a posição dele e considero a discussão importantíssima para um debate democrático.

Como diria Churchill: "Não existe opinião pública, mas sim opinião publicada."
Não podemos deixar que continue assim. Temos que enfraquecer essa máxima. Por isso segue o pronunciamento do deputado Ivan Valente e asssim, tentamos diminuir o abismo entre a "realidade" e o que é publicado na grande mídia. Vamos abrir os olhos.


Sr. Presidente, Sras e Srs Deputados,

Nas últimas semanas, assistimos, assustados, aos níveis de autoritarismo atingidos pela imprensa brasileira na cobertura do golpe em Honduras. Enquanto nossa delegação parlamentar buscava em Tegucigalpa contribuir para a restituição da ordem democrática no país, a mídia nacional fazia malabarismos para legitimar um governo golpista e ignorava solenemente as inúmeras violações de direitos humanos e restrições aos direitos civis praticadas pelo governo Micheletti. Economizando decibéis, apenas registrou o fechamento e ocupação de emissoras de rádio e TV na capital pelo Exército
Hondurenho.

Os índices de violação da liberdade de expressão e de imprensa em Honduras, no entanto, são altíssimos. Em Tegucigalpa, o Canal 36, a Radio TV Maya e a Radio Globo foram ocupadas. A cabine de transmissão da Rádio Juticalpa, em Olancho, foi alvejada por metralhadores. Na cidade de Progresso, fecharam a rádio Progresso. O Canal 26, TV Atlântica, recebeu ordens dos soldados para não transmitir informações que viessem de fora do governo de fato. Os jornalistas também estão sendo ameaçados. Nos primeiros meses do golpe, Gabriel Fino Noriega, da Radio Estelar, foi assassinado por forças paramilitares. Isso para não falar das agressões que sofreram os repórteres da Telesur, de longe a emissora que tem feito a maior cobertura do golpe, e das proibições e repressões às manifestações públicas de apoio, nas ruas, ao presidente deposto Manuel Zelaya.

Apesar do vasto rol de violações à liberdade de expressão em Honduras, este não parece ser um problema preocupante para a imprensa brasileira. Tampouco o é – coincidência ou não – para a SIP, a Sociedade Interamericana de Imprensa, sempre a primeira a gritar quando qualquer Estado latino-americano promove mudanças nos meios de comunicação.

Foi assim quando o presidente venezuelano Hugo Chávez não renovou a concessão da RCTV, ou quando a Assembléia Nacional da Venezuela aprovou, em 2004, a Lei Resorte (Lei de Responsabildiade Social no Rádio e na Televisão), que tem como objetivo fomentar a responsabilidade dos prestadores de serviço, anunciantes, produtores nacionais independentes e usuários dos serviços de comunicação, buscando o equilíbrio democrático, a promoção da justiça social e a formação cidadã. Construída a partir de um amplo processo de participação popular, que durou mais de um ano com debates realizados em todo o país, a Lei Resorte priorizou a produção local e comunitária, deu apoio à mídia popular, estabeleceu a pluralidade de vozes em todas as mídias, definiu o funcionamento das emissoras públicas, prevendo mecanismos de controle social, regulou a propriedade dos meios e o conteúdo, com restrições de horário para crianças, tempo para veiculação de publicidade e previsão de veiculação de programas que valorizem a cultura nacional e a leitura crítica da mídia.

Quando, na Bolívia, o presidente Evo Morales aprovou um decreto reservando espaços dos meios de comunicação para a livre opinião dos jornalistas e outros trabalhadores ligados a sindicatos de imprensa, a grande mídia também chiou. Acharam um acinte terem que reservar três minutos diários no rádio e na TV para ampliar a pluralidade e diversidade de idéias e opiniões nos meios de comunicação em massa. Da mesma forma, bateram no projeto da nova Lei de Comunicação do presidente do Equador Rafael Correa que, após inúmeros debates no Fórum Equatoriano da Comunicação, propõe a divisão eqüitativa do espectro eletromagnético, por onde passam as ondas do rádio e da TV. A proposta é reservar 33% do espectro para cada um dos setores: público, privado e comunitário.

Também em defesa da pluralidade de vozes e do interesse público, o Parlamento uruguaio aprovou um projeto de lei sobre conteúdos digitais na televisão, no rádio e no cinema que fixou horários para a veiculação de determinados conteúdos e criou a figura do ombudsman público, uma ponte direta do cidadão telespectador e ouvinte com a empresa de comunicação. O ombudsman atenderá, por exemplo, a denúncias de pais que questionam o conteúdo que atinge as crianças e dará atenção à opinião de artistas e
escritores que estiverem sofrendo ameaças às suas liberdades. Desta vez, a imprensa brasileira silenciou sobre a importante iniciativa do país vizinho.

A última a sofrer os ataques da grande imprensa e a ser chamada de violadora da liberdade de expressão foi a presidenta da Argentina Cristina Kirchner. A nova lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, depois de debatida em audiências públicas e ter incorporado sugestões da base de oposição ao governo, foi aprovada no Congresso, promovendo uma transformação completa no monopólio histórico do grupo Clarín no país. De acordo com o texto, nenhuma empresa poderá ter mais de dez concessões de rádio e TV aberta (14 a menos que o limite atual) e quem possui um canal de TV aberta não pode, na mesma localidade, ser dono de uma emissora a cabo. Ou seja, a lei ataca a
propriedade cruzada na radiodifusão, proibindo a concentração vertical e também horizontal. A audiência também será limitada, como acontece em países como os Estados Unidos. As áreas cobertas pelo conjunto de emissoras de uma mesma empresa não podem atingir mais do que 35% dos habitantes daquela região, sob o risco de configuração de um outro tipo de monopólio.

A lei enfrenta ainda o problema da produção nacional, estabelecendo cotas mínimas para conteúdos produzidos no país, assim como a produção independente, que ganha uma reserva de 30% da grade de programação de emissoras localizadas em cidades com mais de 1,5 milhão de habitantes. Até a questão da monopolização da transmissão dos campeonatos de futebol – tão frequente aqui no Brasil – foi enfrentada. Um dos artigos garante o direito ao acesso universal aos conteúdos informativos de interesse relevante e de acontecimentos esportivos. Por fim, estabelece a realização de audiências públicas para determinar a prorrogação das concessões de rádio e TV.

Ou seja, assim como em vários países da América Latina, o Estado Argentino tomou as medidas necessárias para democratizar os meios de comunicação, garantindo mecanismos para a liberdade de expressão de setores antes excluídos da esfera pública midiática. Rapidamente, a imprensa brasileira foi pra cima da Presidenta Cristina Kirchner, assim como faz com os demais presidentes latinos que enfrentam o poder intocável dos meios de comunicação em massa. Trata-se de uma ação preventiva, para impedir que a onda que pretende construir uma mídia mais democrática em nosso continente chegue aqui no Brasil.

A I Conferência Nacional de Comunicação, agendada para dezembro, certamente terá entre uma de suas principais reivindicações a necessidade de quebra do monopólio da mídia e defesa da liberdade de expressão para todos e todas em nosso país. Será um espaço para a população manifestar seus anseios em relação ao setor das comunicações e, pelos resultados já apontados nas etapas municipais, que acontecem Brasil afora, o pleito por transformações na regulamentação dos meios será grande. Ao contrário do que defendem os radiodifusores e do que parece entender o Supremo Tribunal Federal, a
comunicação, como qualquer outra área, precisa ser regulada, para que não valha ali a lei do mais forte política e economicamente.

Uma parte dos grandes empresários da mídia se recusa a participar do debate público democrático. Retirou seus quadros da organização da Conferência e prefere seguir fazendo política como sempre, nos bastidores e corredores do Planalto e deste Congresso, sem ouvir os anseios daqueles que são nada mais que os receptores dos serviços prestados pelos radiodifusores. Enquanto isso, nossa imprensa ataca aqueles que promovem mudanças concretas visando a democratização dos meios e silencia diante das maiores violações à liberdade de expressão que ocorrem em Honduras. Algo está fora do lugar. E a sociedade brasileira, pelo que parece, dá indícios de que cansou de ficar sentada, calada, em frente à televisão. Que venham as transformações na mídia há tanto tempo reivindicadas pelo povo brasileiro.

Muito obrigado.

Ivan Valente

Deputado Federal PSOL/SP

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Liberdade de expressão x liberdade de imprensa

Li um ótimo artigo da Sylvia Moretzsohn no site Observatório da Imprensa sobre esse tema.

Vale a leitura!!

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=532CID001




A causa da liberdade provoca paixões. Paixões que alucinam. Empolgado na defesa de sua proposta de abolição da Lei de Imprensa, na sessão em que o Supremo Tribunal Federal começava a discutir o tema, o deputado Miro Teixeira exagerou na metáfora clássica do "quarto poder": a imprensa não seria apenas representante do povo, seria o próprio povo. Assim resumiu O Globo a fala do deputado, na edição de quinta-feira (2/4):
"A imprensa são os olhos do povo. Requeiro que desapareça a possibilidade de pena a jornalista ou responsável pela publicação sempre que houver causalidade com o direito do povo e que nós possamos ter um país em que o povo possa controlar o Estado e não que o Estado possa controlar o povo, como temos hoje".
E o povo, como todo mundo sabe, "se vê" na Globo.

Caberia perguntar, então, qual o sentido da democracia e da realização regular de eleições diretas para os mais variados cargos legislativos e executivos do poder do Estado, qual o sentido da existência dos mais diversos movimentos sociais e organizações da sociedade civil, se quem nos representa – perdão: quem incorpora nossa identidade – são as empresas de comunicação?

Grandes empresas privadas de comunicação, segundo o modelo vigente no país.

Grandes empresas privadas podem ser a referência de expressão do interesse público?

Quem sabe a pergunta nem faça sentido, pois é forçoso reconhecer que, identificada com o "povo", a imprensa estabeleceria essa "linha direta" – portanto, sem mediações – comprometida com a expressão daquilo que outro deputado, em outra ocasião, chamou de "instintos mais primitivos". Afinal, o "povo" é assim.

Entretanto, vindo de quem vem, o raciocínio nem é tão surpreendente. Num passado relativamente recente, numa das muitas vezes em que os exageros televisivos expressavam precisamente esses "instintos" e levaram à discussão sobre a necessidade de se estabelecer limites para a programação, Miro Teixeira, então ministro das Comunicações, argumentava singelamente que "o melhor controle é o controle remoto" [CartaCapital, "Globo: questão de Estado", 1/10/2003]. Era uma declaração absolutamente coerente com a lógica neoliberal da democratic marketplace, na qual o cidadão é assimilado ao consumidor e o consumidor "tem sempre razão". Hoje, porém, com o abalo provocado por uma crise financeira global de consequências ainda imprevisíveis, conviria refrear um pouco esse ardor em torno do mercado.

Liberdade de expressão x liberdade de imprensaRetornemos ao argumento original. Esse "direito do povo" a que o deputado se refere é o direito à liberdade de expressão, automaticamente identificado ao da liberdade de imprensa. Seria importante desfazer o equívoco, porque afinal se trata de duas coisas diferentes: bastaria indagar, por exemplo, se o jornalista funcionário de uma empresa goza de tal liberdade; ou mesmo se "o povo" não teria a sua liberdade de expressão restrita quando envia uma carta não publicada ou – nesses tempos de "cidadãos-repórteres" – manda uma colaboração ou denúncia que acaba descartada. (Neste segundo caso, a resposta óbvia é não, porque não há jornalismo sem edição, e editar significa fazer escolhas. Jornais devem zelar por sua linha editorial. Além disso, em qualquer suporte diferente da internet, têm espaço limitado).

Mas essa confusão é muito adequada quando se deseja tratar abstratamente desse tema tão delicado que é a liberdade de imprensa, esquecendo-se convenientemente as condições concretas em que se pratica o jornalismo e os interesses envolvidos no negócio da imprensa, especialmente num contexto de forte concentração dos meios de comunicação.

Ressalvas ignoradasNa exposição de motivos em que sustenta a proposta de revogação da lei, Miro Teixeira busca fundamentação em uma série de juristas, entre os quais pelo menos dois apontam conflitos que ultrapassam a demanda específica da petição. Assim, José Joaquim Gomes Canotilho ressalta:
"A liberdade interna de imprensa (...), que implica a liberdade de expressão e criação dos jornalistas bem como sua intervenção na orientação ideológica dos órgãos de informação (...), pode considerar-se em colisão com o direito de propriedade das empresas jornalísticas".
Logo a seguir, José Afonso da Silva argumenta:
"A liberdade de informação não é simplesmente a liberdade do dono da empresa jornalística ou do jornalista. A liberdade destes é reflexa no sentido de que ela só existe e se justifica na medida do direito dos indivíduos a uma informação correta e imparcial. A liberdade dominante é a de ser informado, a de ter acesso às fontes de informação, a de obtê-la. O dono da empresa e o jornalista têm um direito fundamental de exercer sua atividade, sua missão, mas especialmente têm um dever. Reconhece-se-lhes o direito de informar ao público os acontecimentos e ideias, mas sobre eles incide o dever de informar à coletividade de tais acontecimentos e ideias objetivamente, sem alterar-lhes a verdade ou esvaziar-lhes o sentido original, do contrário, não se terá informação, mas deformação. Os jornalistas e empresas jornalísticas reclamam mais seu direito do que cumprem seus deveres".
A liberdade "natural"O jurista prossegue nos termos clássicos que reiteram o papel da imprensa como "quarto poder", elemento de expressão da vontade popular e de defesa contra os excessos do Estado. Não envereda pela discussão das questões complexas e sempre polêmicas sobre objetividade e imparcialidade, que estão no cerne da prática jornalística. Apenas anota a crítica: jornais e jornalistas reclamam mais seu direito do que cumprem seus deveres.

É quanto basta, sobretudo porque a frase jamais será mencionada – muito menos destacada – em qualquer jornal.

E, embora sirva-se do argumento de dois juristas que fazem tais ressalvas, Miro sustenta que "o pensamento e sua manifestação, assim como a informação, são naturalmente livres".

Naturalmente: vivemos num mundo – e num país – igualitário, sem coerções ou constrangimentos.

Liberdade e responsabilidadeAo justificar seu voto pela extinção total da Lei de Imprensa, o ministro Ayres Britto, relator da ação proposta pelo deputado, mencionou a necessidade de "permanente conciliação entre liberdade [para a atuação da imprensa] e responsabilidade", porque, "sob o prisma do conjunto da sociedade, quanto mais se afirma a igualdade como característica central de um povo, mais a liberdade ganha o tônus de responsabilidade". Entretanto, não explorou esse caminho, que conduziria a uma estimulante discussão sobre a suposta, ou pretendida, "mudança de paradigma" – da liberdade de imprensa para a responsabilidade da imprensa – ensejada há mais de 60 anos pelo famoso relatório da Comissão Hutchins, como Venício A. Lima expôs em artigo neste Observatório (ver "A responsabilidade social da mídia").

Pelo contrário, logo no início de sua declaração de voto, o ministro cita a Primeira Emenda da Constituição americana, sem recordar que, desde 1919, a Suprema Corte daquele país estabelece limites à livre expressão, como o advogado José Paulo Cavalcanti Filho demonstrou em artigo também publicado neste Observatório (ver "O drama da verdade – ou discurso sobre alguns mitos da informação").

A sequência do discurso é a reiteração do pensamento liberal clássico. Ayres Britto define a imprensa como "o espaço institucional que melhor se disponibiliza para o uso articulado do pensamento e do sentimento humanos como fatores de defesa e promoção do indivíduo, tanto quanto da organização do Estado e da sociedade" e considera que "é pelos mais altos e largos portais da imprensa que a democracia vê os seus mais excelsos conteúdos descerem dos colmos olímpicos da pura abstratividade para penetrar fundo na carne do real".

No entanto, deixa-se ficar na abstratividade, ao reforçar o argumento de Miro Teixeira, que vê "a imprensa como alternativa à explicação ou versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da sociedade", e daí concluir que ela significa o "garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em qualquer situação ou contingência" (o destaque é meu).

As "neves eternas da legalidade"Vício de jurista, talvez, como escreveu certa vez o também jurista Nilo Batista, com a verve que lhe é peculiar:
"Juristas sofrem de uma doença profissional perigosa, proveniente do contraste entre as altas temperaturas da fundição do discurso do poder e as neves eternas da legalidade compreendida pelo viés positivista, que congela esse discurso na lei. Tal enfermidade nos habilita a perceber conflitos sociais como simples deficiência de normatização, que o inesgotável Estado do bem-estar jurídico tratará logo de suprir, motivo pelo qual adquirimos a capacidade mágica de superá-los com dois ou três artigos e parágrafos. Ficamos sempre um pouco desorientados perante a força bruta que rompe os modelos legais, ansiosos por repousar no porto seguro de alguns incisos e alíneas".
(A propósito, o trecho é parte de um artigo que o autor enviou à Folha de S.Paulo, no qual tentava polemizar com um professor norte-americano que, em artigo reproduzido no caderno "Mais!", defendia a política de guerra de Bush. "Tentou em vão", como escreveu na revista da qual é editor, e na qual finalmente publicou seu texto. "Parece que a opinião de juristas brasileiros, salvo poucas exceções, não interessa muito ao `Mais!´, ou interessa mais ou menos").

Penetrando "a carne do real"Assim, só é possível pensar que a imprensa é esse "garantido espaço de irrupção do pensamento crítico" se desconsiderarmos as situações objetivas e optarmos pelo consolo dos incisos e alíneas, como numa paráfrase à máxima do Direito: dentro da lei, dentro da vida.

Dessa forma, o ministro pode afirmar que "quem quer que seja pode dizer o que quer que seja". Pode, ainda, elogiar o caminho da autorregulação da imprensa, buscando o exemplo do noticiário sobre o parlamentar americano que se suicidou em frente às câmeras: as imagens foram congeladas antes do disparo fatal. Entretanto, se quisesse "penetrar fundo na carne do real", poderia ficar por aqui mesmo e recordar o recente episódio da cobertura em "tempo real" do sequestro e assassinato da jovem Eloá Pimentel, em Santo André; ou do acompanhamento ao vivo do "caso Isabella"; ou dos ataques do PCC em São Paulo, em 2006; e paremos por aqui porque a lista é interminável.

Um equívoco de origem ancestralComo se há de perceber, este artigo não pretendeu discutir a necessidade ou não de uma Lei de Imprensa, embora esta seja uma questão de extrema relevância. Pretendeu apenas demonstrar os descaminhos de um debate central para a cidadania, quando se desconsidera a realidade concreta para a definição do direito de informar e ser informado.

Não seria possível concluir sem mencionar uma hipótese para as origens desse equívoco tradicional que suspeita do poder do Estado e aceita placidamente o poder econômico. Como argumentei certa vez, a idéia de autonomia ou independência da imprensa significa implicitamente autonomia ou independência em relação ao Estado – o que ratifica o conceito de "quarto poder" –, enquanto a dependência em relação ao poder econômico é vista como parte da ordem natural das coisas.

A origem dessa dicotomia sugere uma remissão completamente descontextualizada ao entendimento do mercado como uma extensão da vida doméstica, na qual os cidadãos deliberam "livremente". Ou seja, enquanto a naturalização do papel político da imprensa como fiscal do poder tem dois séculos, a naturalização da subordinação da imprensa às leis do mercado é um pouco mais antiga: remete à polis grega, ao oikos como extensão da vida privada.

O que mais impressiona é que, na era da mais extrema concentração de capital do mundo globalizado, esse equívoco ainda sobreviva.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Soterram também a informação, o debate...

Acabei de ler um artigo muito interessante e que para alguns desavisados e apressadinhos nervosos pseudo-defensores do ser humano, podem acabar achando que o texto critica a cobertura da mídia ao tratar com tanta tristeza os mortos, feridos e desabrigados na catástrofe que se tornou as enchentes no sul do país.

Mas penso e corroboro com o seguinte, insistindo na tecla, há mais desinformação do que jornalismo real nos meios de comunicação. O que só se vê e lê é comoção atrás de comoção, quando não leviandades e verborragias críticas em cima de governos e governantes. Cadê o debate sério? A crítica ao mercado e as elites especuladoras? Podem dizer que sou ingênuo, mas a verdade é que sei sim o quanto isso é pedir demais para os meios de comunicação. Só que no fundo não estou pedindo aos meios, mas sim à sociedade, a todos nós. Nós que temos que cobrar e nos cobrar.

Claro que devemos nos comover, se envolver. Claro que temos problemas estruturais, políticos e, agora, de emergência para resolvermos. No entanto, não vejo muito, além ou após a cobertura solidária aos desabrigados uma matéria em que se discuta porque situações como essa não param de acontecer em nosso país.

Alguns trechos do artigo que nos faz pensar um pouco além da cobertura oficial:

"Impossível não nos ficar a impressão que autoridades e mídia, e talvez uma boa parte da sociedade, já assimilaram como fatos naturais do destino brasileiro as horríveis mortes por soterramento e enchentes que anualmente fazem dezenas de vítimas nessas épocas de chuvas mais intensas. Diluem-se assim comodamente nesse cenário de pretenso destino compulsório as responsabilidades públicas e privadas na verdade responsáveis por tantas vidas violentamente ceifadas."

"A questão essencial é que estão sendo ocupadas pela urbanização, à vista e com o beneplácito oficial, áreas que por suas condições geológicas jamais poderiam ser utilizadas para tal fim. Pior, estão sendo ocupadas utilizando-se de expedientes técnicos (desmatamento, cortes, aterros, disposição viária...) totalmente contra-indicados para tais situações."

"Para uma mais acurada compreensão do problema e para o correto equacionamento de sua solução, é indispensável considerar separadamente dois aspectos fundamentais, mas bem diversos, dessa questão; o fator técnico e o fator político-social-econômico."

Segue alguns outros exemplos de enchentes que enfrentamos esse ano aqui no Brasil:
Novamente, nossa amiga Globo nos fornece o material.








O artigo é do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos e foi publicado na Agência Carta Maior.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Faltou educação!


Recebi semanas atrás um e-mail intitulado "CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA". Numa mistura de felicidade e tristeza, li com muita atenção o texto em que a viúva de Paulo Freire, um dos maiores pensadores que o mundo contemporâneo já produziu, escreveu para responder a um artigo publicado na revista em setembro deste ano.
Segue um trecho do artigo e em seguida a resposta de Nita.

VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA
Publicado em 12 de setembro de 2008 às 10:38

por CONCEIÇÃO LEMES


Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão ensinando a ele? De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, ela foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há o seguinte trecho:

"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:

"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio, por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas, camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire.


Eu tenho nojo dessa revista. Eisntein deve ter se revirado em seu túmulo ou trocado risadas irônicas ao lado de Freire aonde quer que estejam. Viva Einstein e Freire!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Educação liquidada...

Já conhecia por meio da internet o grupo "Cia Barbixas de humor", mas recentemente recebi um vídeo deles muito interessante e engraçado fazendo uma paródia das propagandas que fazem anúncio de universidades pagas. Apesar do vídeo ter sido feito para uma outra universidade paga de São Paulo e não caberá aqui julgamento desta e nem de outras específicas, achei que o vídeo além de fazer rir também faz pensar.

UNINADA - Cia. Barbixas de Humor


Existem outros dois vídeos parodiando esses comerciais, mas esse foi o que mais me fez rir e pensar nesse post.

Pensei, principalmente, em duas coisas. Como está sendo um descalabro essa invasão de universidades pagas que só têm o intuito de fazer dinheiro, lucro. Deixando para trás o que mais deveria preocupar quem estabelece o comprometimento com a educação ao criar uma casa do saber.

Não conseguimos mais ver quase nenhuma diferença entre um comercial das casas Bahia com o de uma universidade. Todos têm promoções imperdíveis, letras miúdas ilegíveis, textos animadíssimos e em alta velocidade, gente bonita pra dedéu e hiper mega felizes, e por aí vai... mas é isso... as coisas estão cada vez mais uniformizadas pela propaganda, pelo comércio, pelo mercado... "Uai! (me diria um mineiro... rsrs) Mas tem que ser assim mesmo! As pessoas precisam sobreviver, pagarem suas contas, se não vender, se não for assim, perde espaço no mercado e assim, excluído do sistema não terá como se sustentar... e quem vai pagar as contas??? Você??" Costumo ouvir muito isso. No final do mês quando chega uma conta sempre lembro disso, mas não me deixo enganar tanto assim por esse raciocínio... Mesmo sabendo que realmente precisamos pagar contas. Só acho que os meios estão confusos, obtusos, perdidos...

Sou do tipo que acredita que a educação, principalmente a pública, se tornou o que é hoje pela criação das escolas particulares. A partir do momento que você separa os ricos dos pobres, você separa os privilégios. Essa segregação se estabelece em praticamente tudo. Cria-se um desgaste, um abandono do Estado, ou do que é público para que em seguida comecem a dizer que o Estado está falindo (ou falido mesmo) e que nada melhor do que dar a "liberdade" a sociedade para que ela (mercado) estabeleça novas e melhores condições para suprir o que o Estado não teve competência para gerir. Vimos isso não só na educação, como nas telecomunicações, entre outros... Se há males que vem para o bem, acho que também devem ter bens que vem para o mal. Acho que muitas coisas melhoraram sim, claro... não sou maluco e cego. Só acho que essa falência do Estado, na maioria dos casos, é lorota, mentira e quando é verdade é construída... Não sou contra o mercado, por mais que possa estar parecendo. Sou a favor do equilíbrio. Tem que haver os dois. Só que entre os dois prefiro algo público, pois teríamos a quem recorrer ou depor. Já em instituições privadas só podemos "recorrer" ao Procon e olhe lá.

Acho engraçado esse discurso próneoliberal que defende com unhas e dentes o livre mercado e na hora em que ele entra em "crise" corre como uma criança no colo do Estado (do público, nosso, de todos) para pedir empréstimos e consignações sempre com a retórica de que se isso não acontecer a sociedade, a economia pode entrar em colapso, estagnação (olha o terror aí gente!!), inflação nas alturas, desemprego... DESEMPREGO!!! Esse é o grande discurso.... fingem se preocupar com o povão para recorrer ao nosso dinheiro!!! Ahahahahah!! Dá vontade de rir. Novamente bônus para eles, ônus para todos.

Voltando um pouco para a educação, mas mantendo esse pensamento mercado/Estado, acho engraçada essa defesa do livre mercado como solução de muitos problemas que o Estado não teve competência para gerir, ou pela defesa da liberdade individual de escolha (como se não houvesse com instituições públicas. Como se só houvesse a possibilidade de existir ou uma nação em livre mercado, liberal, ou uma nação "comunista", fechada, 100% estatal, controlada à mão de ferro... pô, pessoal, já tá na hora de parar com esse pensamentozinho década de 80 alá Reagan). Não param de chover casos em que se prova o quanto as instituições particulares também não estão conseguindo gerir seus proprios negócios. A culpa, claro, deve ser do Estado ou dessas crises que não param de pulular pelo mundo.


Gostaria de ver uma lei do senador Cristovão Buarque ser aprovada (claro que ele já sabe que não será) que faria com que todo cidadão eleito para um cargo político público fosse obrigado a matricular seus filhos em escolas públicas. Com o perdão do exagero, seria a salvação do país! rsrs... Imaginem só a melhoria que as escolas públicas sofreriam? Agora imaginem o êxodo nas escolas particulares... os com maior poder aquisitivo indo para as escolas municipais, estaduais e federais?? A melhoria na educação na infra-estrutura que haveria nas escolas? Imaginem só pobres e ricos, negros e brancos convivendo muito mais? Teríamos cidadãos muito melhores!!! rsrsrsrsrs!! Só sonhando e brincando mesmo!

Mas vamos ver uma coisa. Quando uma universidade pública entra em greve de funcionários, de professores ou até mesmo de alunos, como essas notícias são transmitidas pelos meios de comuicação? E quando há greve em universidades particulares? Não que não tenha matérias jornalísticas a respeito, mas eu não to lembrando de nenhuma... e se tiver e quando tiver, vale avaliar o conteúdo e tipo de abordagem da notícia.

Vale lembrar também na saúde. Claro que sofremos sim e muito com o serviço público de saúde, apesar de alguns bons exemplos aqui e ali (e vale lembrar, pouco falado nos meios), mas e matérias sobre o assalto que se tornou os planos de saúde? E sobre o mal atendimento e até mesmo picaretagem de médicos e funcionários de hospitais ou clínicas particulares?? E discussão sobre o absurdo HUMANO que é uma pessoa sofrer um acidente, estar morrendo, sei lá... qualquer coisa do tipo... e por algum motivo estar mais próximo de um hospital particular e NÃO PODER SER ATENDIDO!!! "Senhor, qual o seu plano???" SOBREVIVER!!!!!!! Por favor, pode ser?!?!??!?! Vale ver o filme $ICKO do Michael Moore sobre o sistema de saúde americano para termos uma noção de onde surgiu essa mentalidade para mim doentia.

Se alguém quiser baixar o filme Sicko por torrent e a legenda em Pt-Br
- Torrent
- Legenda 



Por enquanto é só... achei importante comentar sobre isso... volto a tratrar do assunto brevemente.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dossiê Venezuela

Desde que Hugo Chávez se tornou presidente da Venezuela muitas coisas foram especuladas a respeito. Muitos o amam, muitos o odeiam. Para muitos ele representa uma das principais resistências ao neoliberalismo e para outros muitos apenas mais um ditador populista cheio de retóricas vazias.

O que mais me interessa aqui não é desfiar sobre qualquer tipo de julgamento a respeito de Chávez ou mesmo seu governo. De antemão já deixo claro minha posição. Não o amo nem o odeio. Ao mesmo tempo que não o acho santo, não o considero um ditador, longe disso, por sinal. Como todo processo de mudança, seu governo também comete erros. Não são infalíveis. No entanto acredito na força simbólica e política que esse governo venezuelano vem estabelecendo no cenário mundial nos últimos quase 10 anos. Que muitos dizem ser por meio de uma ditadura. Eu discordo. Ele está sendo eleito. Eleições e referendos são aplicados e ele já saiu vitorioso e derrotado, como em qualquer democracia. Porque será que as matérias que saem no noticário não tratam o governo norte-americano como uma ditadura?? O que seria o consenso de Washington?? O que seria o Ato Patriótico nos EUA?? Acredito ser muito pior e ditatorial. Apesar da grande desculpa anti-terror.

Sei que minhas leituras podem estar dando impressão de estar fortemente a favor de Chávez, mas não é a verdade. O que acontece é que sou e estou contra a maneira como se faz jornalismo hoje em dia. Antigamente "podíamos" entender, no entanto, em tempos de internet, não acredito ser mais possível ser tão discarada a mentira e a manipulação de dados e omissão de informação nos noticiários. É parcialidade demais pro meu gosto!



Não consigo ver imparcialidade numa matéria desse tipo. O tempo todo a notícia é ressaltada pela visão da "derrota" de Chávez, que perdeu em cidades importantes. Peraí!! Seu partido venceu em 17 dos 23!!!!!!! Como diria o Luiz Carlos Azenha em seu blog:

"A mídia brasileira prefere esquecer, mentir, omitir ou distorcer: Chávez acaba de "perder" eleições regionais em que candidatos apoiados por ele venceram mais de 70% das prefeituras e "apenas" 17 de 22 governos regionais. Isso com o petróleo em baixa e a inflação em alta, depois de 10 anos de desgaste no poder.
A mídia brasileira prefere esquecer que Correa reformou a Constituição com apoio de mais de 60% dos votos, que Morales foi mantido no poder com 66% de "sim" e que Lugo chegou ao poder prometendo renegociar o acordo de Itaipu e fazer a reforma agrária.
Independentemente da permanência destes líderes no poder, o que os levou até lá veio para ficar: a defesa de interesses nacionais (deles) que em alguns casos se contrapõe a interesses de empresas brasileiras."

E para tentar mostrar que a questão aqui não é estar a favor ou não de Chávez e sim contra o tipo de jornalismo sem ética que se pratica e não está mais dando pra ser praticado em nosso tempo... segue um pouco de material audiovisual de boa qualidade para se ver, pensar e discutir. Ver que o buraco é muito mais embaixo e que o que essas grandes emissoras dizem tem muito dinheiro por trás para dizer o que eles dizem. E não apenas uma mídia informativa imaparcial para o bem da nação.

Como não quero ficar estabelecendo minhas posições políticas pessoais e sim deixar com que os outros meios de comunicação nos façam refletir sobre o que vem ocorrendo em torno dos acontecimentos que envolvem a Venezuela, política, econômica, cultural e socialmente, seguem alguns vídeos e filmes.

Fiz um apanhado de vídeos, filmes, reportagens e entrevistas que trataram dos principais eventos envolvendo o governo de Hugo Chávez. Principalmente a respeito dos fatos ocorridos na tentativa de golpe ocorrido em 2002.

Fiz apenas uma seleção do que poderia nos ajudar a refletir melhor sobre os fatos e ver como nossas opiniões às vezes esbarram na desinformação irrefreável que os grandes meios de comunicação nos proporcionam. Perceber também como há muito mais informação entre o céu e a terra que nossa vã filosofia não explica. Serve para percebermos como as fontes saídas dos meios de comunicação são extremamente tendenciosas e obtusas. Quando não agindo de extrema má fé.

Contudo, espero aqui, não levantar bandeiras e defesas cegas, mas sim, pretendo que com esses vídeos e informações o debate aumente em torno do papel e das responsabilidades dos meios de comunicação em nossa sociedade. A discussão em torno da ética precisa ser retomada. Estamos soltos em meio a uma selva onde tudo pode ou nada pode. Acredito que não sejam as únicas opções.

Novamente, o que precisamos fazer é distribuir mais e novas informações para o maior número de pessoas possíveis. Nós, que nos informamos, corremos atrás de ler e ver o que não está na grande mídia, ainda somos uma minoria. Às vezes parece que não, mas ainda somos sim. Andamos nas ruas, conversamos com as pessoas e só ouvimos assuntos que estão sendo tratados pelos "principais" canais de televisão, de jornal e de rádio. É o jogo do brasileirão, a briga da Luana, tiroteio não sei aonde, etc, etc, etc... Não que esse tipo de entretenimento que eu considero barato não tenha o seu lugar. Não acho que todas as pessoas devam o tempo todo conversar sobre filosofia e política "avançada", mas acho que estamos, sim, perdidos. Zumbis) Quando temos assuntos na boca do povo que trate de assuntos que deveriam interessar mais as pessoas, a meu ver, como questões culturais, políticas, sociais, econômicas, sociais, etc... conseguimos realizar nossas vontades e impedir que "saqueadores políticos e econômicos" tomem conta de tudo que é nosso. Nossa liberdade.

Muitos podem dizer: "Ai cara, que papo chato esse. Coisa pra baixo. A gente tem que estar pra cima. Ver as coisas pelo seu lado positivo. Tudo na vida tem seu lado bom e ruim, cabe a gente escolher como quer ver...."

Eu discordo e parafraseio Saramago: "Não sou pessimista. O mundo é que está péssimo". Essa frase por sinal vi num post feito por um amigo meu em seu blog Sangue de Barata. Veio a calhar o texto sobre esse grande escritor português. Não acredito nesse mundo bom. Que ele tem coisas maravilhosas, com certeza sei que tem. A questão é que não estamos felizes de verdade. Para confirmar o que estou dizendo basta sair as ruas e ver a cara das pessoas. Sejam ricos ou pobres.

Mas para parar de falar começar logo com os filmes, segue um clássico e muito conhecido sobre a manipulação dos principais meios de comunicação da Venezuela para ajudar no golpe que tiraria Hugo Chávez do poder por dois dias.

A Revolução não será Televisionada
(legenda em português)


Segue um bom e curto resumo sobre o filme aqui. (para que o post não fique imenso)

Esse filme causou tanta discussão e desconforto (para os que odeiam Chávez) que foi feito um outro filme para rebater todas as acusações feitas pelos diretores irlandeses no "A revolução não será televisionada". O filme se chama "Radiografia de una mentira". Ele é o registro de um seminário dado em uma universidade venezuelana pelos dois produtores do documentário, Wolfgang Schalk e Thaelman Urgelles, com a presença de alguns outros convidados.

Os diretores alegaram que o filme irlandês não passava de uma peça de propaganda financiada pelo regime de Chávez e que, através de manipulações de imagens, inversões cronológicas, utilização de imagens antigas, colagem e, principalmente, gravíssimas omissões informativas, tentaria passar para os espectadores uma imagem inocente do presidente.

Esse vídeo não é achado em nenhum outro lugar a não ser no Google Vídeo. Não se acha em torrent, em programas p2p, sites. Muito menos legenda em português. Mas vale a pena ver mesmo em espanhol com legenda em inglês (é bem tranqüilo) para se ter uma noção dos contra argumentos de quem está do lado contrário ao governo de Chávez. Quem não tiver tempo ou paciência para ver aqui ou no Google Vídeo mesmo, pode deixar baixando. É simples. No canto direito da tela é só clicar em "Download Vídeo - iPod/PSP". Podendo ver depois com mais calma.

Radiografia de uma Mentira
(Em espanhol com legenda em inglês)


Renato Rovai (um dos criadores da Revista Fórum e um dos jornalistas mais informados sobre os acontecimentos na Venezuela após o golpe em 2002) deu uma entrevista à TV Câmara em 2007, quando estava lançando o seu livro "Midiático Poder" sobre a força e influência dos meios de comunicação na tentativa de destituir Hugo Chávez do poder. Vale conferir para se ter uma noção maior dos fatos ocorridos naquela época e também detalhes da situação local e como ela difere e muito de como é retratada pelas grandes mídias.

Primeira parte 1/3 (dividido em três partes)


segunda parte 2/3

terceira e última parte 3/3

Nesse mesmo canal já foi debatido o assunto por outros especialistas. Para quem quiser assistir, segue o link.

Debate sobre o governo de Hugo Chávez.

No debate produzido pela TV Câmara, o documentário é analisado por Gilberto Maringoni, jornalista e historiador; José Carlos Aleixo, doutor em Ciência Política; José Carlos Avellar, crítico de cinema; e pelo deputado federal Francisco Rodrigues (PFL-RR), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Venezuela. Eles falam sobre o cenário político da Venezuela, o papel dos grupos de comunicação na tentativa de golpe, a influência dos Estados Unidos, a democracia na América Latina e as relações entre Brasil e Venezuela.

Outros filmes e vídeos foram produzidos para debater o assunto e até mesmo contra argumentar, criticar o que era veiculado nos grandes meios de comunicação.

Filmes como:

Otro modo es posible... en Venezuela
(85 minutos - Direção: Grabriele Muzio; Elisabetta Andreoli e Max Pugh)
(Em espanhol com legenda em italiano)




Este documentário fala das origens da situação social e política na Venezuela. Sua filmagem coincidiu com o aniversário de seis meses após o golpe de 11 de abril de 2002. Esta centra a sua atenção sobre a comoção causada pelo golpe e da reação popular que se seguiu, cuja força restabeleceu o poder do governo. Este documentário é uma homenagem calorosa e vigorosa para a consciência social e política do povo venezuelano e da sua determinação na defesa da democracia, da justiça e da paz. Este filme conta a história de outro mundo e outra forma que é não só possível mas já existem na realidade.


Venezuela, um mundo por ganar
(43 minutos - Direção: David Segarra)
(Em espanhol, sem legenda)


A revolução bolivariana vista do lado de dentro e pelo lado de quem está de fora.


Puente Llaguno, clave de una massacre
(105 mintuos - Direção: Ángel Palácios)
(Em espanhol)



Durante os protestos populares de apóio ao presidente em Puente Llaguno, 19 pessoas são assassinadas por franco-atiradores. Em uma excepcional montagem, os meios de comunicação da oposição apresentaram as mortes como vítimas dos círculos bolivarianos e de franco-atiradores do governo de Hugo Chávez. Esse documentário expõe algumas dúvidas razoáveis: Se a manifestação da oposição não passava por ali a quem disparavam essas pessoas? Se disparavam contra manifestantes desarmados por que e do que se protegiam atirando-se ao chão? O que aconteceu aos franco-atiradores capturados nos edifícios próximos? Por que muitos familiares das vítimas defendem os que dispararam alegando defesa própria enquanto os meios insistem só em nos mostrar a outra versão?


War on democracy
(96 minutos - Direção John Pilger)
(Inglês com legenda em espanhol)



Neste documentário John Pilger sugere que, mais além de levar a democracia ao mundo, como sempre o governo dos Estados Unidos propaga, na verdade ele faz de tudo para que isso não aconteça. O filme inclui agentes da CIA que revelam como eles propagam sua guerra particular na América Latina.

O filme não se restringe ao eventos ocorridos na Venezuela. Ele expande suas investigações para outros governos latino americanos que sofreram intervenção direta ou indireta dos EUA, mas usa uma grande do tempo do filme para ilustrar os acontecimentos venezuelanos, com informações que complementam muitas coisas que vimos por aqui. O filme, para mim, peca um pouco, as vezes, por ser muito dramático e aparentemente tendencioso demais. Mas vale conferir.


Esse post chega ao fim por enquanto. Ele receberá novas informações logo. E receberá revisões para que possíveis erros sejam corrigidos e melhoras sejam feitas. Qualquer sugestão, crítica, pergunta que queiram deixar, fiquem a vontade.

Para quem gosta de baixar filmes em torrent, seguem os links:

A revolução não será televisionada (legenda em português)

Venezuela, um mundo por ganar

Puente Llaguno, clave de una massacre

war on democracy (legenda em português)


os outros filmes não encontrei em torrent.


Após essa saraivada de material sobre os acontecimentos na Venezuela após abril de 2002, faça sua reflexão, debate e tire suas próprias conclusões.

Não tenho a mínima idéia do que fazer e do que tem que ser mudado nesse mundo. Mas prefiro agora dentro dessa minha confusão interna, usar uma frase do anteriormente citado José Saramago.

"Quantos delinqüentes existem no mundo? A violência já atingiu o nível da barbárie. A corrupção chegou a tal ponto que é um problema de linguagem. A palavra bondade hoje significa qualquer coisa de ridículo. É preciso conquistar, triunfar. Ninguém se arrisca a dizer que seu objetivo é ser bom. Querer ser bom em uma época como esta é se apresentar como voluntário para a eliminação. Como chegamos a isso?" Até que concluiu: "Para mudarmos a vida, é preciso mudarmos de vida."
(retirado do blog Sangue de barata)

Ética Automobilística I

Realidade vs Ficção. Essa é a relação entre o que vivemos quando saímos às ruas e quando ligamos a tv e vemos um dos zilhões de novos comerciais de carros lançados no mercado.

Vivo na capital do Rio de Janeiro. Apesar de hoje em dia isso não ser mais definidor da questão aqui abordada, pois percorro diversas pequenas cidades e me vejo preso em trânsitos, ar poluído, carros a toda velocidade, etc... Um exemplo concreto (sem trocadilho): Quem já foi, está, ou ainda vai para Ouro Preto (cidade histórica, importante e linda de MG) pode perceber o que estou falando. Cidade turística de pequeno porte, mas que não está mais suportando a quantidade de carros, motos e ônibus dentro dela, principalmente o centro. O cheiro da fumaça é insuportável, os carros não te deixam mais passear à vontade, a vista não é mais a mesma com tanto carro estacionado e circulando. Isso Ouro Preto. Cidade pequena. Agora voltamos ao Rio de Janeiro, que também é turística, no entanto é MUITO maior que a cidade mineira.

As ruas hoje em dia são moldadas por carros! Não existe mais espaço onde não tenha carros estacionados. As calçadas não são mais traçadas pelas guias, mas sim por carros. Vivemos sob o domínio do som. Do som dos automóveis, do trânsito (e dos canteiros de obras!!! Aaaahh!!! Tem um prédio sendo construído do meu lado!!!! rs). O cheiro de poluição fica impregnado em nossas roupas e cabelos quando voltamos para casa (um fumante talvez não perceba isso.... rs).

A violência no trânsito é um problema cada vez maior e mais sério em nosso país. Atravessar uma rua no sinal fechado para os carros hoje em dia se tornou um risco também. Temos que esperar bem atentos para cruzar a faixa. Tempos atrás (sem querer ser nostálgico, até porque não tenho idade para isso e não gosto de nostalgia) marcávamos os momentos de trânsito por horários de pico e datas do ano. Hoje não mais. Toda hora é de pico e todo dia tem seus motivos para o trânsito ficar parado. Seja por obra, por acidente ou por fluxo mesmo.

Essa é a nossa realidade. Apenas quero refletir sobre isso. Não quero ser ranzinza e chato, mas tá foda!!

Aí que entra o mundo da ficção. Quando voltamos desse inferno urbano pós-moderno seja lá mais o que for isso, sentamos nossas bundas no sofá e ligamos a tv (eu cada vez menos faço isso. Ela está mentindo demais para mim, e ainda dá umas risadinhas na minha cara) assistimos coisa desse tipo:



Tudo bem, o comercial é "engraçado", isso e aquilo. Mas vem cá... tá vendendo carro ou disco? De novo, tudo bem. Como estão vendendo carro eles mostram todo o design e desempenho. Mas péra lá! Carro não se coloca no armário e nem se deixa só na garagem. Você o usa nas ruas, junto com (infelizmente) vários outros carros, pessoas, transporte público. Esse carro emite ruído, poluição, etc... Não imagino um comercial de carro diferente ou que me mostre todos esses problemas, senão não venderia.

E posso, em parte até concordar. Imagine uma situação muito normal entre os seres humanos: Eu sou um cara boa pinta, legal, inteligente, contudo também tenho defeitos e problemas, mas quero conquistar uma garota. Fica quase óbvio que ao abordar e conhecer a moça não irei falar e mostrar esses meus defeios e problemas... não é?! Então, da mesma forma, imagino eu, os donos das marcas de carros e marketeiros façam a mesma coisa. Mas será que eles estão certos? Será que a situação é a mesma? Será que a responsabilidade aí incutida vale para ambas as situações? E a ética? Ainda existe isso? Eu acho que sim. Por isso o post. Não sou marketeiro e nem especialista em carros, por isso não me venham me perguntar que comercial fazer e como fazer para vender carros sendo ético e responsável socialmente. Até porque eu diria para não se vender mais carro na quantidade que se vende e muito menos com combustíveis que poluam.

A única ética que funciona para eles (atenção!! momento lugar comum!! rs) é a ética do lucro! Mas não deveria ser. Podem ter lucro? Podem. Mas assim? Eu acho que não deveria ser. Não confio e não gosto das pessoas que preferem os fins aos meios. O mundo é o que é muito por esse tipo de indivíduo, que para ele os fins justificam os meios. E tudo vira uma pseudo festa. "Eeeeeee!! Tá tudo bem!! O mundo é assim mesmo!! Parem de ser chatos, certinhos!! Conquistem o de vocês! Eu conquistei o meu!! Me deixem!" Esse papo não dá mais.

Outro lado dentro dessa ficção, desse espetáculo da mentira e usura está nos próprios meios de comunicação! Ah! Sempre eles!!! rs
Não param de noticiar a violência no trânsito, as ruas e avenidas paradas são sempre matéria diária nos telejornais...



poluição, então, entrou de vez na pauta...



mas na hora dos intervalos comercias dessas mesmas emissoras o que mais aparece???? O quê?? O quê?? Claro, além de cerveja, casas bahia, bunda e celular.............. Comercial de carro!!!



Então acho que é isso. Cada um com seu cada um. Mas o meu cada um é estar de saco cheio de tanta mentira, tanto carro, tanta poluição, tanto trânsito... ... por isso meter pau nisso tudo, fazer a gente discutir mais é minha vontade. Ver o que queremos e pra onde queremos ir... Não vejo o carro como um problema. Pelo contrário. Uma evolução da sociedade. Nossas conquistas estão diretamente relacionadas a velocidade com que conseguimos nos transportar e os carros nos ajudaram muito nisso. Porém, vejo duas questões principais nisso tudo: Primeiro é o uso dos combustíveis. Já é mais que viável e possivel usar formas NÃO poulidoras (elétrico, ar, água, etc...). O segundo ponto são os meios de comunicação junto com as empresas de publicidade (claro, junto com as empresas automobilíticas) que criam e veiculam essas mentiras "engraçadinhas" e "bem boladas", cheio de efeitos e criatividade, mas que não têm nenhum comprometimento com a realidade e com a sociedade. Tá na hora de ficar claro que o mercado não deve ter essa autonomia desvinculada de suas responsabilidades éticas sociais, humanas. Até por que na hora do lucro a sociedade (representada por um Estado) deve se manter o mais distante possível, para não atrapalhar e criar "suas ditaduras comunistas maléficas", mas na hora do quebra-quebra, das crises financeiras (que pra mim não passam de lorota. Alguém deve estar rindo muito da gente no meio dessas crises) o mercado vem mansinho pedir empréstimos para a sociedade.

Bônus para eles. ônus para a gente.

Chega.